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António Lobo Antunes dizia que se aprende a escrever, lendo. O Carlos Rayo é um leitor em forma de escrita, que se aventurou no mundo desconhecido da literatura, com a candura inconsciente de um Gil Eanes, quando embarcou numa frágil barca de mastro único, rumo ao Cabo Bojador, sem saber bem o que o esperava. Da luta titânica com o mar encapelado das palavras, nasceu o "Urânio!" que representa a dobragem desse tormentoso exercício de passar ideias ao papel, singrando entre ventos e recifes, apenas guiado pelo portulano do ignoto e acompanhado daquele outro eu que escreve, como diria Vergílio Ferreira. A narrativa do "Urânio!" enraíza na semiótica daquilo que a cultura norte-americana, sempre sintética e arrumada nas suas catalogações, qualifica genericamente de legal thrillers, ficções ancoradas nas múltiplas declinações em que se desdobra o fascinante mundo do direito e seus protagonistas. Sem enjeitar esta subsunção, o "Urânio!" procura desbravar outros caminhos, alguns bem mais nacionais e tortuosos, como o imobilismo da sociedade civil, a geografia dos interesses, o mundo dos poderes ocultos, as sombras da venalidade, a fatalidade do centralismo e mesmo a preguiça dos tribunais. No epicentro do furacão, está uma modesta advogada de província, mulher que divide o seu tempo entre causas menores e a criação de ovelhas, mas que ainda acredita no primado da lei, na justiça dos homens, na bondade do direito e, sobretudo, no direito à cidadania da indignação, transfigurada nas vestes de uma Maria da Fonte em versão alentejana, que agita e galvaniza a patuleia adormecida pelos fumos inebriantes do canto das sereias do eldorado de um novo volfrâmio. Justamente o repto mais desafiante desta trama terá sido compelir o autor a pensar pela cabeça de uma mulher, que não se quis heroína, mas apenas genuína, simultaneamente frágil e destemida, dócil e intratável, numa matriz comportamental complexa e indecifrável, tão própria do género feminino e que implicou, para quem escreveu, intrincados contorcionismos intelectuais, próximos da identificação stendhaliana com a sua Madame de Bovary. No mais, é uma estória de pessoas, de vidas, de locais, de sabores e humores, de contrastes, de afetos e cumplicidades, anjos e vilões, concupiscência e frugalidade, sombras e luzes, com o inevitável fundo moralista, tão ao jeito da nossa herança judaico-cristã. Poder-se-á dizer, como no genérico dos filmes, que todos os personagens e fatos que integram o "Urânio!" são pura ficção e que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, mas não estou tão seguro de que as ameaças que pairaram imaginativamente sobre os céus, a terra e as gentes da simpática vila de Nisa, não possam, um dia, materializar-se doutra forma, noutro lugar e noutro tempo, mas com o mesmo traço distintivo de cupidez associada à corrupção, que se tem tornado numa deprimente endemia tão corrente no nosso país, ao nível do escaravelho da batata, das assembleias de condomínio ou das lêndeas no cabelo dos nossos filhos em idade escolar. Se for assim, só espero, para bem dos próprios, que apareça uma qualquer Naty, feita, como todos nós, de contradições e insuficiências, mas animada pela força, que confere a fé inabalável nas coisas justas e na razão dos probos. Albert Camus dizia que, quem escreve de uma forma clara tem leitores e quem escreve de forma obscura tem comentadores. Espero, pois, que haja mais quem leia do que comente. "Urânio! Intriga Internacional no Alentejo", com edição da Sopa de Letras, foi lançado no dia 2 de junho na Feira do Livro de Lisboa (Praça Laranja), com apresentação de Margarida Rebelo Pinto. O autor, Carlos Barbosa da Cruz, assina como Carlos Rayo.