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Por que razão a direita não se une?

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Não deixa de impressionar a velocidade com que o tempo passa. Mas já foi em Setembro de 2016, há dez anos, menos de um ano depois de António Costa ter criado a geringonça que escrevi que só com uma aliança entre o PSD e o CDS, que se traduzisse num projecto político e num discurso governativo capaz de romper com o passado, seria possível afastar a geringonça do poder e levar por diante as reformas que o país precisava para que se desenvolvesse sem mais endividamento. Repeti-o em 2019, quando o Chega já existia, embora sem qualquer deputado. Esse era o meu entendimento porque, depois de terem estado juntos no governo durante um período tão complicado, os dois partidos partilhavam de uma visão reformista para o país. Havia um chão comum. Infelizmente, em cada um dos dias, semanas e meses que cabem nesses três anos, a resposta que obtive foi sempre a mesma: o CDS tinha a sua própria identidade e era importante que a mantivesse porque só dessa forma se combatia o populismo de direita que crescia a olhos vistos na Europa e nos EUA. Não sei o que pensava o PSD, embora os sociais-democratas estivessem mais preocupados em saber o que fazer com Passos Coelho e em como se apresentarem ao eleitorado depois dele. Já quanto ao CDS não quis ficar com a fama do sacrifício que foi o governo 2011-2015 e, em 2017, achou que o segundo lugar obtido nas autárquicas em Lisboa era um prenúncio de que ia substituir o PSD.

Dez anos passados e o CDS de então acabou e o Chega de André Ventura é o maior partido da oposição. Podem dizer-me que hoje, PSD e CDS estão juntos no governo. É verdade. Mas também é verdade que o CDS não existe enquanto partido autónomo com capacidade de pensar políticas e de contribuir para a renovação da direita não socialista. A unidade da direita foi um comboio que passou em Portugal em 1979 e voltou em 2011. Não foi uma. Foram duas vezes. Um verdadeiro milagre. Mas em nenhuma delas se considerou oportuno agarrar a oportunidade.

É, pois, com algum pasmo que leio e ouço pessoas (algumas ligadas ao CDS da altura em que uma fusão desse partido com o PSD pudesse ter contribuído para a afirmação de um projecto político e de um governo de mudança efectiva do estado) ponderarem agora sobre as vantagens de uma aliança da direita, desta vez  entre o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal. E pasmo-me porquê?

Não pela inconsistência, até porque prezo quem muda de opinião. Também eu neste espaço já fundamentei de forma racional argumentos para mais tarde apresentar outros opostos. Não pelo estouvamento ou leviandade de quem defende um percurso por num momento lhe ser o caminho conveniente e depois o altera porque a conveniência mudou também. Isso é o pão nosso de cada dia e não apenas na política. Faz parte da vida e há que conviver com ela com graça. A razão por que considero que actualmente (e sublinho bem a palavra actualmente) uma união da direita não é possível é esta: a direita está desunida não porque haja muitos partidos, mas porque o eleitorado de direita pensa de forma diferente sobre temas essenciais. Os partidos não se entendem porque o eleitorado que vota nesses partidos também não se entende. Não encontra chão comum. É uma situação muito diferente da de 2015, 2016 ou 2019 em que o eleitorado do PSD e do CDS tinham muito em comum, mas os responsáveis políticos da altura tiveram outros planos.

Isto tem tudo a ver com o que tentei explicar na semana passada sobre a alteração do eleitorado da direita. Com a experiência do período da troika, mais os oito anos de governação de António Costa, o eleitorado de esquerda passou a ser de direita no que toca a assuntos de identidade e de vida em sociedade, mas  continua de esquerda (socialista) em termos económicos. Parte deste eleitorado que votava essencialmente no PS e algum no PSD transferiu-se para o Chega. Entretanto, parte do eleitorado da direita de há 10 anos também mudou. Uns porque compreenderam que, sem a tal fusão que mencionei no início deste texto, tanto o PSD como o CDS não tinham força anímica para mudarem o rumo do país. A maioria destes passou a votar na IL. Outros porque as alterações sociais ocorridas com a globalização e a inovação tecnológica e científica abriu portas a mudanças para as quais não se sentiam preparados e consideraram que, tanto o PSD como o CDS não sabiam dar resposta adequada a esses novos desafios do século XXI. A maior parte destes passou a votar no Chega. É importante ter em conta que o CDS perdeu representação parlamentar não devido às divisões internas, mas porque o seu eleitorado (as famílias tradicionais do norte e das beiras, a que se somaram os agricultores) desapareceu. Numa democracia, os partidos políticos representam grupos políticos da comunidade. Ora, a comunidade política que era representada pelo CDS desapareceu e o partido teve o mesmo destino.

Assim, juntar o PSD, o CDS e a IL num só partido não é hoje viável simplesmente porque não há o chão comum que existiu há dez anos e que foi desaproveitado. E esse chão comum não existe por cinco motivos: primeiro, porque parte da direita que hoje é maioritária no parlamento defende uma maior intervenção do estado na economia, é socialista em termos económicos, razão pela qual PSD, CDS e IL juntos não têm maioria; segundo, porque o CDS não tem representatividade na comunidade política; terceiro, porque a Iniciativa Liberal é um partido com um posicionamento político próprio. Se para uns se posiciona à direita, para outros coloca-se à esquerda, na medida em que há liberais de direita e de esquerda. Uma aliança da IL com o PSD não significa uma soma imediata de votos nessa coligação. Ademais, a Iniciativa Liberal, desde a sua origem, tem apresentado propostas, políticas e económicas, que uma pequena parte do PSD até gostaria de implementar apesar de não o conseguir; quarto, porque o PSD é prisioneiro de um aparelho que está no poder local, regional e central e que não deixa implementar as reformas que a IL defende; e quinto, porque este PSD não consegue ter um discurso que explique e convença o eleitorado da necessidade imperiosa para que se implementem as reformas de que se fala há anos. Não o consegue porque não acredita nelas. Não sei se é por, no seu âmago, se opôr a elas, se é por receio, se é por as não compreender e assim não as saber explicar. Não sei e, sinceramente, também não interessa tentar compreender o motivo porque a verdade é que este PSD não as faz.

Para terminar há um ponto que não posso deixar de mencionar. A política tem muito de comportamento humano. É como a economia. Tanto numa como noutra o objectivo é compreender o que as pessoas querem e ir ao encontro delas. Aqui diferem do direito porque este regula comportamentos humanos, logo codifica-os. Quero com isto dizer que é preciso contar com a irracionalidade, ao contrário do direito onde deve imperar o bom-senso. A AD de Sá Carneiro fez-se pela vontade de uma pessoa, o aval de algumas e o apoio da maioria da população. Com a sua morte, perdeu-se a aura e a unidade. Porque a política tem este lado irracional há sempre a hipótese de uma nova liderança política criar condições para que se estabeleçam pontes entre pontos de vista abafados pela incerteza dos tempos. Mas essa é uma possibilidade que, de momento, não está à vista nem se vislumbra no futuro próximo. A política pode ter uma forte dose de irracionalidade, mas não deixa de incidir sobre o real.

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