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Nos últimos meses têm-se multiplicado as reflexões sérias sobre a natureza e consequências da revolução da Inteligência Artificial. Na semana passada comentei no Observador as meditações do Papa Leão XIV sobre o tema. Não aborda todos os aspectos de forma satisfatória, mas não deixou de ser importante. O Papa imitou os outros. Em todo o mundo tanto as expectativas, como as preocupações, crescem a cada dia. A enxurrada justifica-se por inteiro. Mais, o tema adquiriu uma inequívoca urgência. Deixando de parte as importantes questões da concentração do poder das grandes empresas que dominam estas tecnologias, ou os usos sinistros e cruéis das novas possibilidades, temas que abordei na SIC Notícias, há um outro aspecto desta revolução que começa a enraizar-se precisamente pela sua urgência. É, de resto, um problema recorrente nas grandes revoluções tecnológicas e "industriais". À medida que os modelos LLM vão, por um lado, melhorando, e, por outro, generalizando-se na sua utilização, vamos descobrindo as profissões e competências humanas em risco de substituição. Profissões até há muito pouco tempo consideradas insubstituíveis, como a de tradutor ou aquela que se dedicava ao coding, vão-se obliterando na linha de tiro da Inteligência Artificial. Uma após outra vão engrossando um desfile de relíquias do passado até ao infinito. A tentação é pôr os óculos de historiador e dar a resposta que, noutras ocasiões, seria certeira e passaria por sofisticada. Seria a resposta que reafirma todos os precedentes históricos para dizer que uma revolução tecnológica não cria desemprego - apenas reconfigura, por vezes de modo radical, imprevisível e irreconhecível, o mercado de trabalho e o elenco de funções. Foi assim no passado, será assim no presente. O defeito clássico da sabedoria do historiador é profetizar eternas recorrências e repetições sem dar espaço para o que não tem precedentes, para o absolutamente inédito. Com efeito, no caso da revolução tecnológica que estamos a viver existe muita coisa que é nova. A começar pelo essencial: as revoluções tecnológicas do passado, incluindo as mais recentes, seguiram o alinhamento de estender, ou aumentar, as capacidades humanas. Tornavam as máquinas ferramentas dos humanos, fazendo deles, e ao seu comando, seres mais fortes, mais longevos, mais rápidos, mais memoriados. Sucede que o que temos diante de nós mostra todos os dias, não o nosso aperfeiçoamento, ou fortalecimento, mas a nossa obsolescência. Para ser mais rigoroso, mostra a nossa superfluidade. Não há talento, competência, função profissional ou ociosa, que não esteja ameaçada pelo superior desempenho da máquina. Como devemos associar a revolução da inteligência artificial com a revolução na robótica, porque ambas estão associadas e sobretudo porque o potencial de alinhamento entre ambas é astronómico, mesmo as funções e desempenhos de carácter físico-atlético começarão a revelar a sua obsolescência. As grandes instituições sociais que edificámos para glória do mundo estão também em risco de cair na insignificância, como as universidades, os tribunais ou a escolha pública-política. Assim como estão as posições de mais elevado prestígio social, como a do advogado ou a do professor universitário, que têm os dias contados. Daí que a discussão sobre se vai haver mais desemprego ou menos desemprego, acaba por ser surpreendentemente fútil. Se antes se propunha um rendimento de existência relativamente elevado para todos, obtido a partir dos novos ganhos de produtividade, e distribuído para compensar o desaparecimento de empregos, agora temos de finalmente confrontar a ameaça da total superfluidade. Ao contrário do que sugerem os suspiros estéreis da esquerda, não há rendimentos básicos universais que nos devolvam a substancial insubstituibilidade do ser humano, se esta for irremediavelmente perdida. As razões desta escalada são muitas, desde a compreensão de que tanto no sentido da existência e na formação da identidade pessoal resulta do trabalho que fazemos, até à subversão dos usos do nosso prestes a ser adquirido lazer. Mas se, na consciência que temos de nós próprios, a máquina e o seu glorioso desenvolvimento nos devolverem uma incomensurável e profunda impressão de superfluidade, então o mundo humano morrerá. Não há outra maneira de dizê-lo. Seria irónico que o momento histórico em que a Humanidade alcança o que durante séculos e milénios sonhou - não ter de trabalhar para viver e ter o seu corpo resistente contra a grande maioria dos males que o destruíam - coincidisse com uma espécie de gigantesca eutanásia. O momento de inauditas conquistas coincidiria com a derradeira extinção. Quanto mais depressa começarmos a confrontar este grande ponto de interrogação, melhor. Esta urgência não vai esperar, e, ao contrário do SNS, não há planos de emergência que sirvam de remendos.