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Humilhado na Feira do Livro

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Tenho o hábito de escrever na primeira página de um livro a data em que ele foi comprado. Nos últimos anos acrescento quando li o livro. Geralmente não há grande diferença entre a data da compra e a data da leitura mas pode acontecer. Agora que ando mais dado a releituras, observo com curiosidade essas referências: por exemplo, no último que acabei de reler estava escrito "Adquirido na Feira do Livro/8.6.00 ". Acrescentei portanto agora: "Relido em Maio e Junho de 2026".

Hoje não escreveria "adquirido" mas simplesmente "comprado". Notas assim mostram como mais de vinte anos nos podem mudar. Mais de duas décadas fazem-nos preferir outras palavras. Em vinte e seis anos passei de ser uma pessoa que usava o verbo "adquirir" para uma que usa simplesmente o verbo "comprar". Ao admitir isto, tenho a esperança de que isso confirme em mim algum tipo de evolução espiritual.

Tento ir todos os anos à Feira do Livro: já houve anos em que não consegui mas antigamente ela era o ponto de abastecimento numa época em que a internet ainda não tinha hiper-simplificado a nossa compra. A Feira do Livro inspirava-me ao ponto de escrever, por volta de 2004, uma cançãozinha que a mencionava. Essa canção tem uma letra muito simples: "A Isabel é intelectual/porque perdeu a virgindade na Feira do Livro./Ela lê, ela lê,/ela sabe de cor o ABC."

Este é um poema modestíssimo que condensa uma tendência que tenho para observações sociológicas com pretensões minimamente existenciais. A cantiguinha tornou-se a determinada altura um pequeníssimo êxito underground, pouco antes do fenómeno da FlorCaveira na nossa imprensa no final da primeira década do nosso milénio (podem ouvi-la se procurarem nas plataformas digitais).

A Feira do Livro é acerca dos livros e não só: é também acerca do modo como ligamos o que lemos à Lisboa que nos calhou em sorte. Quando vou à Feira do Livro, mais do que ler o que devo ou quero, tento ler a partir do que a cidade me permite. Fico sensível a descontos que, vamos ser sinceros, são insignificantes na era da internet; fico sensível aos alfarrabistas que se tornam mais organizados para o evento; fico sensível à simpatia de quem vende (ou à ausência dela), entre outras coisas. A pessoa vão vai à Feira do Livro apenas para ler, vai também para não desistir de Lisboa.

Hoje a Feira do Livro está mais parecida com todos os outros eventos que não são feiras do livro: tem uma agenda de concertos abarrotada, tem autores a dar autógrafos com ar carente, tem uma zona de restauração diversa e com preços de estação de serviço. A Feira do Livro festivalou-se e agora quer provavelmente ser o que se tornou obrigatório: uma experiência. Com jeitinho, imersiva (este é um mundo que quer ser baptizado sem se molhar).

Devo assumir que já estive numa Feira do Livro a dar autógrafos e foi uma das experiências mais marcantes da minha vida: apesar de ter o meu nome repetido pelos megafones do certame durante uma tarde inteira e de me sentar numa poderosa poltrona da Bertrand, saí humilhado com o número divino de três assinaturas dadas aos únicos três leitores que vieram ao meu encontro (uma pelo Pai, uma pelo Filho, outra pelo Espírito Santo). Para mim, a Feira do Livro foi também uma inesquecível lição espiritual.

Mas regresso ao livro mencionado no primeiro parágrafo. Esse livro que comprei há 26 anos é o "Temor e Tremor" do Soren Kierkegaard. A seguir à Bíblia, este livro é talvez o que considero mais importante. Mas sobre ele escreverei na próxima semana. Vão à Feira do Livro, com ou sem expectativas de formação espiritual!

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