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A tragédia invisivel por falta do protagonista adequado. O que se vê nesta imagem é o momento em que um homem bloqueia a porta do carro a que ele e um outro criminoso tinham acabado de pegar fogo. Lá dentro quatro outros homens tentam sair da viatura. Em vão. Morrem queimados e sufocados, perante a força bruta que empurra a porta e a frieza mecânica da câmara que tudo filma. Este crime horroroso aconteceu a 1 de Junho em Amendolara, na Calábria, sul de Itália. Estranhamente ou talvez não, passados os primeiros e escassos títulos que davam conta de que "Quatro imigrantes foram queimados vivos dentro de um carro numa bomba de gasolina, em Itália" o caso quase desapareceu das notícias. Nem a juventude das vítimas (tinham entre 19 e 29 anos), nem as imagens do crime, que aconteceu numa estação de serviço onde existiam câmaras, foram suficientes para que motivasse ondas de indignação por essa Europa fora ou, na falta delas, pelo menos alguns debates ou comentários. Nos dias seguintes ao crime, as notícias vão ficado cada vez mais sociológicas e menos factuais: é a exploração nos campos, as redes migratórias, os baixos salários… Como era de esperar, os sindicatos e a Igreja católica vieram exigir respostas e dizer o habitual, "basta de silêncio cúmplice", que é aquilo que se diz quando não se quer dizer mais nada e mandar as culpas para todos, que é o mesmo que para ninguém. O paradoxal é que o "silêncio cúmplice" estava mesmo a acontecer e em boa parte incentivado por aqueles que se manifestavam contra o silêncio cúmplice. Na verdade, os quatro imigrantes, três afegãos e um paquistanês, foram assassinados por dois outros imigrantes, no caso paquistaneses. Sim, há muito silêncio cúmplice em torno da imigração e uma parte desse silêncio cúmplice passa pelo subestimar da violência que imigrantes exercem sobre imigrantes. Quando não existe um exemplar do heteropatriarcado branco (o outro não conta), capitalista (mesmo que o capitalista seja simplesmente trabalhador por conta própria) e de preferência cristão não há culpa nem responsabilidade. Apenas sociologia. A flotilha que se perdeu das notícias. Chamem Israel, pf. A coisa explica-se rapidamente, até porque se sabe pouco: ao mesmo tempo que uma flotilha partia por mar para, segundo diziam, chegar com ajuda humanitária a Gaza, um outro grupo denominado Global Sumud Land Convoy partia com camiões desde a Turquia com a intenção de chegar a Gaza por terra. Na partida fizeram-se as fotos festivas do costume com as bandeirinhas dos países dos participantes (algures na fotografia da partida deve estar a bandeira portuguesa empunhada pela activista portuguesa Ana Margarida França Santana Baptista) e multiplicaram-se as declarações sobre o povo palestiniano e o genocídio levado a cabo por Israel em Gaza. Se alguma vez os envolvidos nesta caravana pensaram chegar a Gaza não se sabe mas provavelmente não imaginaram acabar num centro de detenção em Bengazi, na Líbia, e sobretudo nunca terão pensado que o mundo mediático, sem Israel para culpar, ficaria indiferente ao seu destino. Tanto quanto se sabe alguns dos participantes ficaram incontactáveis quando tentaram falar com as autoridades líbias, entendendo-se por autoridades líbias, neste caso, as tropas do general Khalifa Haftar. Estima-se que alguns dos 71 detidos estarão a fazer greve de fome. Entretanto espera-se que sejam presentes a tribunal. A acusação pode ser nada mais nada menos que imigração ilegal, o que não deixa de ser uma ironia pois aqui, na sua Europazinha, estes activistas são contra o controlo de fronteiras, pelo que, se forem coerentes, devem aproveitar o momento para explicar aos juízes de Bengazhi o seu entendimento sobre tal assunto e quiçá fazer perante eles aquelas performances da gritaria e da resistência. Pode ser que percebam que o mundo é mais complexo do que aquilo que imaginam. A minha proposta para ilustrar as novas notas do Reino Unido: lesmas. Já se sabia que o rosto de Churchill, e também o de Jane Austen e de Alan Turing, iam desaparecer das notas emitidas pelo Banco de Inglaterra para dar lugar a animais selvagens característicos da fauna do Reino Unido. A explicação apresentada há alguns meses para esta mudança foi a adopção de novas técnicas de segurança na emissão de papel moeda. Por razões que escapam ao entendimento humano, as novas técnicas para evitar a falsificação das notas serão mais eficazes no desenho das aves ou das borboletas do que no rosto de um antigo primeiro-ministro. Ou de uma escritora. Ou de um génio da matemática. Fosse porque a explicação parecia muito forçada ou por qualquer outra razão houve quem investigasse a opção do Banco de Inglaterra e descobriu-se que na origem da decisão está um "estudo de mercado" que diz que Churchill, Jane Austen e Alan Turing são personalidades "elitistas e divisivas", além de representarem "uma visão retrógrada do Reino Unido que acarreta um risco muito grande de divisão e controvérsia". Daí a minha proposta ao Banco de Inglaterra para que opte pelas lesmas. Não caiam no erro de desenharem aves, flores ou peixes. Muito menos raposas ou gatos selvagens, tudo bicheza que na hora de verdade não é vegetariana, nem feminista, nem inclusiva. Tenho a certeza que as lesmas correspondem melhor ao estado de espírito woke que se entranhou nas instituições inglesas e que se traduz em factos tão chocantes quanto a reacção ao esfaqueamento de Henry Nowak como aos critérios de selecção dos estagiários para a administração pública: os homens brancos com rendimentos médios estão excluídos do programa de estágios na administração pública . As lesmas na sua enorme variedade não só não podem ser acusadas de serem "controversas e não representativas da diversidade cultural e natural do Reino Unido", como sucede agora com as notas onde constam Churchill, Jane Austen e Alan Turing, como, pelo contrário, acabam, graças à sua estrutura esponjosa, a ilustrar particularmente bem o que pode acontecer a uma sociedade quando perde a coluna vertebral que lhe é dada pelos seus valores civilizacionais. PS. Note-se que no caso de Turing, a quem devemos entre tantas outras coisas o papel decisivo no decifrar dos códigos alemães durante a II Guerra, é já a segunda vez que a acusação de controvérsia e de não representar a "diversidade cultural e natural do Reino Unido" lhe vale o apagamento: nos anos 50, acusado de homossexualidade foi perseguido, acabando a suicidar-se.