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Portugal habituou-se a repetir palavras bonitas. Inclusão. Diversidade. Acessibilidade. Igualdade de oportunidades. Soam bem em discursos políticos, em relatórios institucionais e em conferências académicas. Mas, demasiadas vezes, a realidade concreta das pessoas perde-se no meio da burocracia, das percentagens e do medo de dizer aquilo que é evidente. Tenho deficiência auditiva. Entrei para a universidade em 1996, numa época muito diferente da actual. Existia o chamado contingente especial, mas não o utilizei. Tive receio de ser prejudicado, rotulado ou visto como alguém que teria "entrado por facilidade". Entrei pelo regime geral. Fiz o meu percurso como tantos outros estudantes. Na altura, o sistema era menos regulamentado, menos sofisticado, menos tecnológico — mas talvez, paradoxalmente, mais humano. Quando sentia dificuldades, falava directamente com alguns professores. Muitos demonstravam compreensão, sensibilidade e bom senso. Não existiam gabinetes de inclusão sofisticados, nem formulários intermináveis, nem uma obsessão quase matemática por percentagens de incapacidade. Existia sobretudo uma avaliação mais funcional da pessoa e das dificuldades reais que enfrentava. Hoje, tudo mudou. Temos inteligência artificial, legendagem automática, microfones remotos, plataformas digitais, sistemas FM, implantes cocleares extremamente avançados e múltiplas tecnologias de acessibilidade que seriam impensáveis há trinta anos. No entanto, tornou-se muitas vezes mais difícil reconhecer as necessidades concretas de quem vive diariamente com limitações auditivas ou outras dificuldades funcionais. Criou-se uma espécie de "burocracia da deficiência", onde o ser humano é frequentemente reduzido a uma percentagem. Mas a vida humana não funciona assim. Duas pessoas com avaliações semelhantes podem ter capacidades, contextos e dificuldades completamente diferentes. Há pessoas com enormes limitações físicas e brilhante capacidade intelectual. Há pessoas sem qualquer limitação física com enormes dificuldades académicas. Há estudantes que, graças à tecnologia e a um esforço gigantesco, conseguem integrar-se oralmente na sociedade — e acabam paradoxalmente penalizados porque o sistema assume que "já estão resolvidos". Talvez uma das maiores injustiças actuais seja precisamente essa invisibilidade das dificuldades funcionais. Uma pessoa com implante coclear ou próteses auditivas pode ouvir sons, mas isso não significa automaticamente compreender bem em ambientes ruidosos, acompanhar aulas em anfiteatros reverberantes, participar facilmente em reuniões longas ou evitar fadiga auditiva extrema ao final do dia. Existe um esforço cognitivo permanente que raramente é visível para quem está de fora. E no entanto, quanto maior é o esforço de integração, menor parece ser o reconhecimento institucional dessas dificuldades. Mas também quero ser intelectualmente honesto: inclusão não pode significar ausência de exigência. Esta é talvez a parte mais difícil de dizer em voz alta nos dias de hoje. Nem todas as pessoas têm aptidão para todos os percursos académicos ou profissionais. E isso não é discriminação. É realidade humana. Um curso de medicina, engenharia, aviação ou determinadas áreas científicas exigem níveis elevados de resistência intelectual, capacidade analítica, autonomia, tomada de decisão e responsabilidade técnica. O papel do ensino superior não pode ser apenas abrir portas indiscriminadamente; tem também a responsabilidade ética de avaliar competências e preparar profissionais capazes. Um diploma não é apenas um símbolo social. É uma certificação de competência. Por isso, transformar vagas especiais em mecanismos automáticos de entrada sem avaliação séria das capacidades do estudante pode acabar por ser profundamente cruel. Porque o problema não surge no dia da matrícula. Surge dois ou três anos depois, quando aparecem o sofrimento, a frustração, as prescrições, o abandono silencioso e a sensação de fracasso. Não estou a defender elitismos nem exclusões arbitrárias. Muito menos a negar o direito à educação. O que defendo é algo mais exigente e mais humano ao mesmo tempo: orientação séria, avaliação precoce, acompanhamento individualizado e acessibilidade verdadeira. A inclusão não deve consistir em fingir que todos conseguem tudo da mesma maneira. Deve consistir em ajudar cada pessoa a encontrar o percurso onde possa desenvolver verdadeiramente o seu potencial. E isso implica coragem para dizer algo que a sociedade contemporânea parece recear: igualdade de oportunidades não significa igualdade absoluta de resultados. Há uma diferença entre remover barreiras injustas e negar a existência de limites humanos. Hoje muitas instituições parecem mais preocupadas em cumprir indicadores estatísticos do que em acompanhar verdadeiramente os estudantes. Criam-se estruturas administrativas, discursos politicamente correctos e slogans institucionais, mas continua a faltar o essencial: proximidade humana, orientação honesta e capacidade de adaptação concreta. A verdadeira inclusão não é paternalismo. A verdadeira inclusão exige exigência, responsabilidade, acessibilidade e verdade. Porque abrir a porta da arena não basta. Também é preciso garantir que o aluno possui condições reais para enfrentar o touro.
Também não é facilitismo.
E muito menos pode ser abandono mascarado de boas intenções.