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A guerra foi sempre um espelho, mesmo que algo distorcido, da tecnologia do seu tempo. Das falanges macedónias à artilharia napoleónica, das trincheiras da Flandres aos porta-aviões do Pacífico, cada era imprimiu nos seus conflitos armados os contornos da sua inovação. O século XXI não é exceção, mas a velocidade da transformação em curso supera, em muitos aspetos, o próprio ritmo de adaptação das doutrinas militares tradicionais. O que emerge dos campos de batalha da Ucrânia, do Médio Oriente e do Mar Vermelho é uma realidade inequívoca: o drone tornou-se o eixo de uma revolução nos assuntos militares que nenhum estratega pode hoje ignorar. Durante décadas, a superioridade tecnológica na guerra pertenceu àqueles que tinham a capacidade para adquirir os sistemas de armas mais caros. Aviões furtivos, mísseis de cruzeiro de precisão, sistemas de defesa antimíssil de última geração eram fatores determinantes de diferenciação de capacidade entre os exércitos. Esta lógica económica de poder, segundo a qual o investimento bruto em armamento determinava a hierarquia militar global, está hoje profundamente contestada. A proliferação de sistemas aéreos não tripulados (UAS) de baixo custo, alimentados pela inteligência artificial, pela navegação por satélite e pela eletrónica comercial de massas, nivelou, pelo menos parcialmente, esse campo de jogo. Pequenos drones de primeira-pessoa (FPV) que custam entre 300 e 500 dólares destruíram carros de combate avaliados em vários milhões. Enxames de drones Shahed de fabrico iraniano, com preços unitários entre 20.000 e 50.000 dólares, saturaram e expuseram vulnerabilidades de sistemas de defesa antiaérea que custam centenas de milhões a construir e manter. O Center for Strategic and International Studies (CSIS) publicou, em 2024, uma análise detalhada sobre a relação custo-eficácia das operações russas com drones Shahed na Ucrânia. Os dados são reveladores e demonstram que apesar de apenas acertarem nos seus alvos em menos de 10% das missões e de serem abatidos em mais de 75% dos casos, estes sistemas continuam a ser, nas palavras dos analistas, "a munição mais eficaz ao nível do custo benefício do arsenal de ataque de fogos da Rússia". A lógica apesar de algo perversa acaba por ser implacável pois o custo de um míssil interceptor Patriot (PAC-3) ronda os 3 a 4 milhões de dólares, e um sistema THAAD pode custar entre 12 e 15 milhões por intercetação. Torna-se fácil fazer as contas nesta nova aritmética da guerra. Num relatório recente do European Policy Centre, Chris Kremidas-Courtney sintetiza esta dinâmica com precisão cirúrgica, afirmando que a precisão deixou de ser rara ou cara, podendo ser fornecida em escala, a baixo custo. Esta inversão de paradigma cria uma pressão económica insustentável sobre os arsenais ocidentais. Cada intercetador disparado demora anos a ser reposto através de cadeias de fornecimento complexas, enquanto o atacante pode produzir drones adicionais em semanas, utilizando componentes comerciais e processos de fabrico relativamente simples. Também a NATO reconheceu publicamente que os drones ucranianos foram responsáveis por mais de 65% dos carros de combate russos destruídos, representando uma disrupção fundamental na economia da guerra moderna e um estudo académico publicado no Journal of Defence Studies («Wings and Waves: Ukraine's Drone Revolution», 2025) documenta que os FPV ucranianos, cada um custando entre 300 e 500 dólares, destruíram mais de 4.000 tanques russos desde 2022, incluindo modelos T-72 e T-90 avaliados entre 2 e 5 milhões de dólares cada. A relação custo-dano é da ordem de 1:10.000. Este fenómeno não é exclusivo do teatro ucraniano. No Mar Vermelho, os Houthis do Iémen têm utilizado drones e mísseis antibalísticos de baixo custo para forçar a US Navy e as marinhas aliadas a gastar centenas de milhões de dólares em intercetações, perturbando rotas comerciais que transportam 20% do comércio mundial de petróleo. No conflito israelo-palestiniano, o ataque iraniano de abril de 2024, que combinou 170 drones, mais de 30 mísseis de cruzeiro e mais de 120 mísseis balísticos, testou os limites dos sistemas de defesa de Israel e dos seus aliados de forma que nenhum exercício de simulação poderia replicar fielmente. Seria, porém, redutor reduzir a revolução dos drones ao ataque suicida e à destruição direta. Uma das transformações mais profundas opera-se no domínio do ISR — Intelligence, Surveillance and Reconnaissance. Os drones de vigilância persistente alteraram fundamentalmente a consciência situacional nos campos de batalha modernos, transformando o que era antes um campo opaco e imprevisível que favorecia a surpresa tática, num ambiente de vigilância quase contínua. É precisamente neste nicho do ISR avançado, persistente, operável em ambientes negados, com integração de inteligência artificial e capacidade de operar quer de plataformas terrestres quer a partir de plataformas navais, que uma empresa portuguesa emergiu como referência mundial. A Tekever, empresa tecnológica portuguesa com sede em Caldas da Rainha e centros de engenharia no Reino Unido e em França, tornou-se um caso de estudo incontornável no ecossistema europeu de defesa e segurança, ao desenvolver uma gama de sistemas aéreos não tripulados que estão hoje em serviço ativo em múltiplos teatros de operações. O AR3, plataforma de asa fixa com capacidade VTOL (descolagem e aterragem vertical), 1,7 metros de comprimento e 3,5 metros de envergadura, destaca-se por ser um dos poucos sistemas do mercado com capacidade de Radar de Abertura Sintética (SAR) nesta dimensão (uma tecnologia que permite vigilância através de nuvens, vegetação densa ou em total ausência de sinalização GPS). Esta capacidade de operar em ambientes GPS-negados, cruciais nos teatros modernos onde a guerra eletrónica é usada como arma sistemática, confere ao AR3 uma vantagem operacional distinta. Na Ucrânia, a Tekever forneceu sistemas AR3 e AR5 às Forças Armadas ucranianas com um impacto considerável no conflito, pois o AR3 completou mais de 10.000 horas de voo operacional em território ucraniano e a empresa anunciou, em abril de 2025, a abertura de um escritório em Kiev para acelerar a manutenção e o treino de operadores. Este reconhecimento internacional não se ficou apenas pela Ucrânia. O UK Home Office celebrou com a Tekever um contrato de três anos com um valor de até mil milhões de libras, para vigilância costeira e controlo de fronteiras e a Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA) utiliza os drones AR5 para vigilância marítima persistente nas águas europeias. Em 2024, a empresa assinou um contrato de cerca de 5 milhões de euros com o Ministério do Interior espanhol para patrulhamento de fronteiras terrestres e marítimas. A GNR portuguesa selecionou o AR3 para reforço da vigilância costeira e combate ao tráfico de droga e à pesca ilegal. Recentemente, a Royal Air Force integrou o AR3 no programa StormShroud de guerra eletrónica. As lições que emergem dos conflitos em curso têm implicações diretas para a arquitetura de segurança europeia e para o posicionamento estratégico de Portugal. A primeira diz respeito à velocidade de adaptação tal como bem documenta o relatório do CSIS «Lessons from the Ukraine Conflict» (2025), os desenhadores de drones ucranianos atualizam os seus sistemas em semanas. A NATO e os seus membros europeus, habituados a ciclos de aquisição que se estendem por décadas, enfrentam um desafio estrutural de agilidade institucional. A segunda implicação é económica. A assimetria de custos entre ataque e defesa, onde defender com sistemas convencionais custa ordens de magnitude mais do que atacar com drones de baixo custo, coloca uma pressão crescente sobre os orçamentos de defesa europeus. Não se trata de abandonar as plataformas caras e sofisticadas, mas antes de construir camadas defensivas de baixo custo que absorvam o impacto dos ataques em massa antes de mobilizar os sistemas de maior valor. Esta nova doutrina de defesa em camadas («layered defence») exige precisamente o tipo de drones de vigilância e contra-drone em que a Tekever se especializou. A terceira implicação é geopolítica e industrial. A guerra revelou que a capacidade de produzir drones em escala e de adaptar rapidamente os sistemas às condições do teatro de operações, é um multiplicador de força estratégico para potências médias. Portugal, através da Tekever, demonstrou que é possível posicionar-se não apenas como consumidor de tecnologia de defesa, mas como fornecedor de referência num nicho de elevado valor operacional e estratégico. Este é um ativo de soberania industrial que merece ser apoiado e desenvolvido com visão de longo prazo, tanto em termos de política pública como de investimento privado. A quarta e mais urgente implicação relaciona-se com a necessidade de integrar as lições da guerra nas doutrinas e nas forças armadas nacionais. As Forças Armadas Portuguesas têm utilizado drones Tekever em missões de reconhecimento (Exército Português com o AR4 no Kosovo, Força Aérea com o ARX), mas a integração sistemática de sistemas autónomos de baixo custo nas capacidades táticas e operacionais nacionais permanece um processo em curso, que a ambição orçamental expressa no mais recente ciclo de planeamento estratégico nacional deverá acelerar. Constatamos assim que a guerra moderna não se resume apenas a ser mais tecnológica. É mais rápida, mais económica no ataque e mais cara na defesa. Os drones não substituíram o soldado nem o carro de combate, mas alteraram profundamente a lógica da superioridade aérea, da vigilância, do ataque de precisão e da saturação defensiva. Aqueles que ignorarem esta transformação pagarão, no campo de batalha ou no sistema de equilíbrio geopolítico, um preço que nenhuma análise estratégica convencional terá antecipado. Portugal tem, neste contexto, uma posição invulgar pois é um país geograficamente periférico relativamente aos conflitos em curso, mas tecnologicamente central para um dos seus instrumentos mais decisivos. A Tekever não é apenas uma empresa de sucesso, é a prova de que a inovação tecnológica em defesa pode ser simultaneamente um vetor de segurança nacional, de contribuição para a segurança coletiva dos aliados e de competitividade económica. A nova face da guerra é feita de circuitos, algoritmos e asas de fibra de carbono e Portugal aprendeu a moldá-la.